Wednesday, September 17, 2008

do que mais me dói

eu já estava deitada. deixei a revista ao lado da cama, pus meus óculos ao lado do abajur e apaguei-o. fiz um casulo de cobertores ao meu redor e me aconcheguei para dormir. não consegui. só penso na resposta que ganhei ao perguntar se estava tudo bem, "mais ou menos", ele disse. se bem o conheço, e eu o conheço bem, ao dizer mais ou menos, é porque as coisas estão mais para menos. meu pai sempre foi otimista. eu nunca ouvi dele que estava se sentindo mais ou menos, ainda que estivesse, imagino. e isso partiu meu coração. partiu em pedacinhos tão pequenos, tão miúdos, tão pozinho... que eu só sei chorar. um choro sem desespero, um choro resignadamente triste e sem lágrimas. essa é a minha tristeza: não tê-lo mais otimista e equilibradamente feliz. minha família não possui mais a segurança e a calma com que ele nos provia. porque ele sempre foi o único homem coerente, entre nós, mulheres loucas da nossa casa. e eu cresci. ele envelhece. eu também. já não somos mais os mesmos. nessas eleições ele votará em branco após ter apostado no 13 desde os anos 80. não há como culpá-lo... mas como dói! como dói ver meu pai tendo da vida muito, mas muito menos do que ela deve a ele. como dói assistí-lo perder a esperança e a paciência. porque ele não merecia. e não merecia por ser incrível, fazer tudo certo. sempre tomando vitamina, sendo politicamente correto e ecológico e politizado e sensível e sem frescura. eu sempre fiz frescura escondido dele. pra minha mãe, pras irmãs, pros namorados. com ele nunca me permiti ser infantil demais. eu sempre me mostrei melhor pra ele, para que então, ele me adorasse. e ele me adora. e é assim nosso amor. e como, meu deus, como ser feliz, se ele está mais ou menos? como suportar vê-lo caminhar para uma velhice triste e sem cor? a lágrima já rola salgada...