Sempre que alguém daqui vai embora
dói bastante mas depois melhora
e com o tempo vira um sentimento que nem sempre aflora
mas que fica na memória depois vira um sofrimento que corrói tudo por dentro
que penetra no organismo que devora
mas depois também melhora
sempre que alguém daqui vai embora
dói bastante mas depois melhora e com o tempo torna-se um tormento que castiga, deteriora feito ave predatória depois vira um instrumento de martírio duro e lento
uma queda num abismo que apavora
mas depois também melhora
e vira então uma força inexplicável que deixa todo mundo mais amável
um pouco é consequência da saudade
um pouco é que voltou a felicidade
um pouco é que também já era hora
um pouco é pra ninguém mais ir embora
vira uma esperança cresce de um jeito que a gente até balança
enfim ás vezes dói bastante mas melhora
enfim é só felicidade aqui agora
é bom é bom não falar muito que piora
enfim é só felicidade
sempre que alguém daqui vai embora...
(Luiz Tatit)
Sunday, September 27, 2009
do que tá guardado
eu preciso desabafar. uma lágrima que escorre aqui, outra que vaza pelo canto do olho ali... assim não dá. minha recuperação vai de vento em popa, e por isso, hoje posso dar mais vazão às coisas que sinto. em fevereiro o pai dele morreu e, sobre isso, ele me disse, "não choro toda hora, só me sinto mais velho e mais triste". eu sinto assim após ter perdido você.
todas as coisas me lembram ele.
roqueiro que é, morreu jovem.
fomos muito, mas muito muito felizes. e eu sinto muita saudade. uma saudade que nunca poderei matar. ele é espírita, e deve estar calmo agora pensando que vai encontrar a gente que ficou. e eu que sou agnóstica, como fico?
hoje eu dei uma voltinha no quarteirão com o liro. fez tempo bom. uma voltinha já me cansou. ainda bem tenho mais uma semana de descanso, mas estou com a agenda tão vazia, e a cabeça tão cheia de memórias... não há quem venha me visitar porque nesse lugar não tenho amigos. acho que já está de bom tamanho ter o liro, que é o cara mais fenomenal que eu poderia encontrar.
antes de ontem, o porteiro da madrugada, seu ademir, um negão que falava "legallll..." como quem acabou de fumar um dru, fã de nazareth, gente fina pra caramba, morreu. foi assassinado pela ex-mulher.
vou pra sala ver televisão. escrever é bom, mas tá me fazendo chorar. eu quero sonhar com a praia, quero ir pra praia e também pra assis. quero continuar minha dieta de doentinha, que tá muito saudável e já me fez perder 3 quilos. quero ser muito feliz e quero, por favor, que meus amigos sejam felizes. amigo é pra ser feliz, não pra morrer do que quer que seja. meus amigos são muito de mim.
Thursday, September 24, 2009
do 18 de setembro
sofria de dores abdominais há 5 dias. dores ininterruptas que não me deixavam sequer comer, dormir ou trabalhar. chorava gritando, "minha vida tá indo embora, liro...". não sabia eu que não era mais uma de minhas hipérboles. no 5° dia, então, após a ecografia, o médico me mandou que corresse ao hospital e procurasse por um certo doutor joão. chego lá e esse joão me diz: você deve ser operada com urgência. hoje. explico: minha vesícula estava necrosada e em 2 dias, no máximo, o orgão podre estouraria dentro de mim infeccionando meu sangue e tudo. infecção generalizada. eu poderia morrer. operei. na manhã seguinte, sozinha no quarto do hospital, leio o seguinte numa mensagem em meu celular: trago más notícias: daniel zanin morreu. sandro. na noite anterior eu perdera a vesícula gangrenada e renascia, mas meu melhor amigo morria num acidente de carro. pesadelo. não pude e ainda não posso chorar muito porque minha barriga dói. choro, então, comedida. para que a barriga não doa, para que os meus não desanimem por mim, e porque, eu sei, o daniel preferiria assim. sofro serenamente essa perda que é o daniel (vírgula), meu grande companheiro. menino que botava apostos depois de cada nome citado, e que tocava em meu violão seus heavy metal e o bom travis, além daquelas do oasis. aquele que bebeu lamentos e alegrias e que me elogiava sempre sempre. passava a noite em casa num colchão ao lado da minha cama, comendo pipoca e vendo corujão. meu querido...
e a vida segue. coincidência mórbida ele ter ido e eu que quase fui junto. só que acontece que eu fiquei. eu com minhas saudades que me fazem companhia: meus avós e o daniel. minhas irmãs - a gabi foi impecável ao meu lado, meus pais - que deram a maior grana preta pra minha operação - , meu marido - que me dá comida, me dá banho, me leva ao banheiro, sofre comigo, se alegra com meus progressos, me ama. eu vou ficar bem. eu estou bem. daniel está mais vivo do que nunca em mim. e eu mesma estou mais viva do que nunca.
eu acho que daqui pra frente serei menos lamentos. é fácil: basta me lembrar do hospital, das dores, e a rotina fica doce-doce. a vida é um doce, vida é mel. com pontos e dreno, não faz mal. com cicatrizes que ficarão na barriga. não faz mal. são coisas da vida.
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