"Internada com obstrução intestinal, a caminho do hospital, afirmou: "Vamos brincar de faz-de-conta. Não estamos indo para o hospital, eu não estou doente e nós estamos indo para Paris." O motorista do táxi virou-se: "Posso ir junto?" "Pode levar a namorada também", respondeu Clarice. Tinha um adenocarcinoma de ovário, o caso era irremediável. Em 8 de dezembro de 1977, vomitou sangue e tentou sair do quarto, mas foi barrada por uma enfermeira. "Você acaba de matar o meu personagem", disse Clarice. Morreu na manhã seguinte. Ainda ditou para a amiga Olga: "Eu, eu, se não me falha a memória, morrerei." Ficou o rastro do cometa, o pó das estrelas."
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stardust. o pó das estrelas. a poeira estelar, como queiram. é mais bonito em inglês. estou fúnebre.
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o cauê entendeu que sou professora de inglês e me perguntou se quem dá aula gosta de dar aula. repondi que sim, pra que ele não entrasse em parafuso com sua professora. e, pra ser sincera, eu gosto de dar aula. cauê está aprendendo o alfabeto. e quando ele estiver alfabetizado ganhará um gibi do batman, eu prometi a ele.
cauê é um grande amor. meu grande amor. é o grande amor de muita gente. a professora dele o chama de gatão, diz que ele é especial. eu queria dar aula pro cauê todos os dias. eu gosto de crianças. até daquelas que as pessoas acham chatas. meu pequeno anda angustiado, não sabe se aprenderá o alfabeto. eu aposto que ele aprenderá o que quiser. mas ele está de bode por conta do alfabeto, e não quer ir à escola. minha irmã deixa. não é nada rígida. e seus três filhos são incríveis: estudiosos, engraçados, e devoradores de frutas.
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estou em marília, e sem fumar há 2 dias. e eu queria parar de vez. pra não dar trabalho pra ninguém no leito de morte. só que eu não vou conseguir. eu sei disso. minha vida é estranha sem cigarro. estou fadada ao câncer, infelizmente.
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eu não sei mudar.
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eu não quero falar em morte. eu não quero pensar em morte. eu quero é acordar amanhã e fazer uma torta de frango desfiado com milho verde. minha mãe está com disfunção de ATM e não consegue engolir as coisas, sente dor. eu sofro. minha cabeça só pensa coisas que fazem sofrer.
meu pai está bem. desmaiou há 2 semanas, mas sua melhora é inegável. tudo tem sido mais calmo.
eu queria que as pessoas ao meu redor fossem felizes. eu dou conta da minha dor. eu não dou conta que outra pessoa que eu amo esteja sofrendo sem que eu possa mudar isso. sinto culpa por não ser capaz de porra nenhuma. e a vida é tão sem sentido as pessoas nascem e morrem feito planta, feito bicho, pulga, piolho. por que nós pensamos? seria mais fácil atravessar tudo isso sem pensar. sem que tivesse doenças, pelo menos. eu queria morrer do nada. e que fosse assim com todos. as pessoas poderiam morrer por decorrência de uma única e fulminante crise de narcolepsia. a vida é tão errada, meu deus! e se eu ainda acreditasse em deus, paraíso, vida após a morte... eu não aredito em nada. só acredito que eu amo muito as crianças da minha família ( tem a minha dada linda, cheirosa, bava, sem r), meus pais, minhas irmãs, meus cunhados, meus avós. e a porra é que me acostumei a viver sem o oscar e a anita. como? sinto culpa. sinto medo. eu não queria perder mais ninguém. a vida é muito cruel.
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quando eu era pequena eu chorava escondido. soluçava. depois voltava pra sala e via meus avós e meus pais rindo. eu pensava que um dia eles morreriam. e que eu não agüentaria.
eu não mudei nada.
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